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UMA CARROÇA e UM ARADO - Ferramentas Indispensáveis do Colono

Com um recorte de jornal nas mãos consultou o Pároco de Caxias do Sul para se certificar que a notícia era verdadeira. Meu avô era analfabeto assim como toda a família. Aos 15 anos, "aluga" um cavalo (em troca de duas formas de queijo), e parte em busca de terras levado pelas notícias de que havia terras a disposição com prazos sedutores destinadas ao povoamento.

Em 13 de maio de 1916 Francisco Perini casa com Angelina Bordim (filha de imigrantes italianos radicados na Linha 28) - área colonial mais próxima do Povoado, hoje o centro urbano de Gramado. Ali constroem sua casa a qual vem a se tornar uma referência na historiografia colonial do município de Gramado. Nessa segunda etapa de suas vidas, Francisco e Angelina educam 12 filhos e lá permaneceram por aproximadamente 70 anos. Ali, a semente do turismo foi jogada e cultivadas por longo anos.

Para os colonos de qualquer região a carroça e um arado com tração animal sempre foram "ferramentas" de sobrevivência. Com o tempo passaram a representar uma relativa posição socioeconômica. Ao lado desses instrumentos estava as condições do solo predominantemente íngreme, com muitas pedras e rochas moldavam as roças povoadas com milho, batatas, feijão, cevada e hortaliças que num primeiro momento eram destinadas a sobrevivência familiar. A farinha de milho tinha dois destinos certos, pães e polenta. Os chiqueiros e galinheiros faziam parte do cenário colonial assim como pequenas capelas com seus Santos padroeiros.

O então 5ºDistrito de Taquara, é elevado em 31 de março de 1938 à condição de Vila de Gramado posição esta alcançada com a chegada do trem nos anos de 1920. O turismo, mesmo que a passos curtos, abre as portas do desenvolvimento com o escoamento do excedente produzido na esfera colonial. Com o crescimento da família, foi inevitável uma alteração no padrão de produção. A propriedade passa a produzir e comercializar molho de tomates envazado em pequenas garrafas, levado a banho maria, diferencial pouco conhecido na região. Da mesma forma, o excedente do leite era vendido em tambos, queijos moldados em pequenas formas, ovos e geleias também representavam a mais valia familiar. Em 1940 meu avô povoa parte de suas terras com a aproximadamente uma centena de pequenas varas de parreira "adquirida" mediante troca de cinquenta sacos de milho debulhado.

Em 1943 Francisco Perini dá um novo passo e registra na Junta Comercial a empresa "Vinhos Perini", cantina que por décadas, fora um território exclusivamente familiar cede espaço para que o visitante (hoje o turista), ali saboreasse não somente o vinho como também suco e a famosa grappa. Os inúmeros registros de visitantes a sua cantina revelam que a colônia da Linha 28 passa a ser um "destino turístico" antes mesmo de Gramado se tornar um município o que vai acontecer em 15 de dezembro de 1954.

O crescimento das Colônias como um todo, levam décadas para alcançar seu pleno desenvolvimento econômico. O crescente aumento dos veranistas (hoje turistas), retira do ambiente colonial homens e mulheres que passam a ocupar vagas nos artesanatos, fábrica de móveis e malharias assim como colocações nos restaurantes que germinavam as dezenas. Esse crescimento da cidade faz chegar a esta nova classe social tres possibilidades até então inalcançáveis nas colônias; Carteira de Trabalho, Salário mensal e Férias de trinta dias. Desse movimento socioeconômico nasce a poupança auxiliada pela venda de insumos (ovos, banha, linguiças e hortaliças), consumidos não só pela sociedade nativa como também pelos comensais de outras localidades que chegavam nos fins de semana. Esse movimento de consumo sustenta um dos eixos do desenvolvimento gastronômico do município. Em outro momento trarei minha visão sobre a gastronomia rural onde a polenta sempre terá uma posição de destaque.

Contudo, a sedução em ter uma carteira de trabalho, um salário mensal e férias anuais revelou um custo social até então desconhecido: as Colônias passaram a ter uma involução socioeconômica visto que a mão de obra e sua força de trabalho, desenvolvida exclusivamente na roça, ficou com os pais e avós cuja força física já apresentava visíveis dificuldades.

No próximo artigo avaliaremos um dos marcos do desenvolvimento do turismo em Gramado sendo a região colonial a protagonista.

Publicado originalmente em gramadoempauta.com.br.