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Colunista

Um cinema do outro lado da rua

O longevo ano de 1960 marcou uma nova realidade no entretenimento da comunidade de Gramado. Da tristeza pelo encerramento do Cine Explendid localizado em frente à praça Major Nicoletti, nasceria o Cine Embaixador, hoje rebatizado sob o manto "Palácio dos Festivais". Dali para diante, muitas cenas deixaram de ser registradas ficando, muitas delas, na memória da comunidade. Porém, nem tudo fora esquecido graças a personagens como José Francisco Perini, prefeito e seu vice-prefeito, Almeri Peccin que ocupou a cadeira do Poder executivo no lugar de Arno Michaelsen segundo prefeito de Gramado. O primeiro a ocupar a cadeira do Poder Executivo foi Walter Bertolucci.

Neste período, é criado o COMTUR — Conselho Municipal de Turismo — braço da administração, cujos conselheiros nasciam das famílias, cidadãos comprometidos com o progresso da cidade.

A família Pascoal, detentora do cinema Explendid que não tinha interesse na sequência da sala de exibição destinou o espaço físico para outro empreendimento, restando assim a busca de um novo local para a construção de uma sala mais moderna já que o antigo prédio (anos 30), era totalmente de madeira.

Sair da região central estava fora de cogitação, visto que foi abandonada a pré formalização de compra de um terreno pertencente à família Sperb, localizado na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a rua João Petry, por estar localizado "longe do centro da cidade".

Algumas famílias com terrenos na região central da cidade foram consultadas, porém abandonados por inúmeros argumentos, em especial por valores exorbitantes. Antônio Accorsi, patriarca de uma das famílias que ergueram a cidade, apresenta a comissão responsável pela obra, uma proposta de venda a qual foi aceita, porém, segundo os engenheiros era imperioso que a largura frontal do prédio deveria ter, no mínimo mais quinze metros de calçada. Contudo, esta metragem de frente a fundos pertencia a Diocese, instituição representativa da Igreja Católica. Após várias tentativas de negociação, veio o aval diocesano para fechamento da proposta.

Nascia assim o terreno sobre o qual receberia a nova sala de cinema, do outro lado da rua onde o cine Explendid deixava saudades e boas recordações. Porém nada foi fácil, pois além do pagamento do imóvel, a estrutura para esta sala, deveria estar dentro das novas linhas ditadas pelas correntes da modernidade pois afinal, o Distrito Federal receberia a nova Capital, projeto que enaltecia as linhas retas, em resumo mais arrojadas. Isso levou os conselheiros a oficializarem a criação de uma Empresa na linha de Sociedade Anônima com capital aberto mediante compra de Ações, valores estes que sustentariam todo o novo projeto. Esta comercialização ficou sob a responsabilidade de Dante Bordim, também, filho de família ancestral.

O centro da cidade, através dos anos, passa a conviver com um novo e moderno prédio, porém longe das características com a qual a comunidade e visitantes já estavam acostumadas ao estilo europeu, onde a pedra, o ferro, a madeira e os telhados paulatinamente eram reproduzidos. Os traços originais do Cine Embaixador, em 1988 receberam uma nova roupagem traduzindo assim para os novos e atuais elementos arquitetônicos.

O cine Embaixador abre suas portas no clarear dos anos de 1970. Daí para frente passou a desenvolver uma verdadeira peregrinação até se tornar num palco de discussões culturais dentro do circuito cinematográfico. Nasceu ali o Festival de Cinema Brasileiro, com suas curvas de ascendências e declínios tisnados ora pela política repressiva, ora pelos recursos financeiros.

Anualmente, atores, diretores, produtores e outro exército de pessoas ligados a sétima arte, pousam anualmente em Gramado e aqui são recebidos de maneira gratuita, pois, as refeições, as diárias e os transferes "in/out" são custeados pela iniciativa privada sob a administração da Gramadotur. A contrapartida deste evento são o assédio dos turistas que anualmente, mesmo no período invernal, se acotovelam na frente do cinema, consomem chocolates, e fazem fila nos restaurantes da cidade. Resumindo, o comércio é oxigenado.

Inegavelmente seja o primitivo Cine Explendid, onde o violinista distribuía notas musicais aos espectadores, ou o cine Embaixador que cedeu seu espaço para momentos culturais, políticos e sociais, e agora o Palácio dos Festivais, com um Museu afeto a cinematografia, abriram marcos dentro da leitura do turismo. Pesquisas apontam que o Palácio dos Festivais é um dos locais mais fotografados concorrendo com locais como Cristo Redentor/RJ e as Cataratas do Iguaçu/PR.

Embora suas paredes estejam lotadas de placas alusivas a artistas, atores, produtores e benfeitores, cada cidadão de Gramado tem ali, sua silenciosa representação.

Publicado originalmente em gramadoempauta.com.br.