
O ritual sempre foi o mesmo; fogo que ardia, uma panela ovalada que cabia no lugar das argolas do fogão e uma "mescola" a tirana colher de pau de cabo longo. A propósito a "mescola" foi uma das centenas de palavras criadas pela imigração italiana nas terras do Sul do Brasil. No vernáculo italiano "mescolare" é um verbo que significa mexer.
Aurélio Broilo, casado com Giacomina Bordin, irmã de minha nonna Angelina, instalou nas terras da Linha 28 um moinho tracionado por uma roda d'água. Era ali que o milagre da transformação acontecia; o grão de milho se transformava numa perfumada farinha que disputava lugar na mesa e na roça dos colonos da região, junto com a linguiça, ovos e casca do queijo na abençoada "fortaia" devorada na hora do almoço.
Recordo com alegria as palavras de minha nonna ao meu nonno quando ele me colocava sobre o seu cavalo que dividia o lombo com sacos de grãos de milho para levar até o moinho. Era uma "viagem" cheia de palavras, ainda que mudas.
Comer polenta tinha uma ordem. Mole ou pasta logo que era derrubada sobre um tabuleiro de madeira cortada com um barbante fino ou um fio de linha. "Brustolada" na chapa para compor a janta...
Comer uma "fetina piu grossa" com ovos fritos é uma benção.
Polenta tem que ser "bem cota" ou bem cozida o que significa duas horas, no minimo no fogo. O que sobrava era usada na "mistura" para o saboroso pão de milho que ainda é saboreado.
Os restaurantes da cidade e da região italiana servem polenta na modalidade frita. O que é devorada em poucos minutos.
A polenta é uma marca, um selo que me remete aos dias de infância, em especial aqueles em que corria pela casa de meus nonnos quando, impensável, que haveria, no futuro, boletos para pagar.
Para mim a polenta é, além de um ritual, uma marca de uma cultura familiar cuja lembrança, espero eu, que não seja apagada da minha memória.

Publicado originalmente em gramadoempauta.com.br.
O conteúdo desta coluna é de total responsabilidade do autor.






Comentários
Carregando comentários...