
Fui criado no meio de uma família de imigrantes italianos. Neste ambiente aprendemos só a sonoridade com os significados das palavras do extenso "dialeto" .
Os anos passaram, veio a escola regular, mais tarde a universidade e a sonoridade da fala com sotaque dialetal foi desaparecendo, o que pessoalmente sempre lastimei que essa carícia tanto da fala quanto da audição tenha desaparecido. Dizem que a sociedade molda o homem, no que passei a acreditar.
Veio a maturidade, fase que passamos a olhar pelo retrovisor e encontramos traços que ainda é tempo de reconstruir.
Estar disposto a falar italiano é como estar disposto a falar outro idioma. As escolas estão sempre abertas para novos alunos.
Contudo, reaprender o dialeto italiano não é tão simples.
A primeira etapa é vencer a "trava" da língua imposta de forma recorrente pela vergonha do passado. Sim, vergonha pois quer o italiano (descendente/colono) quer outras linhagens, num passado não muito distante, era visto como um "ser tosco", diferente em tudo do homem urbano, como que se o homem urbano, nas terras de Gramado, não tivesse seu berço na colônia. A segunda hipocrisia a ser vencida.
O Talian, união de todos os dialetos passou a ser reconhecido pelos órgãos oficiais brasileiro com uma "língua auxiliar". E pasmem, temos um "dissionàrio di Talian portoghese" no qual está guardado termos falados de quem veio muito antes de nós.
Aqui nasce a curiosidade do turista, e nosso orgulho ganha sentido.
Atualmente estou na condição de Diretor Cultural da Casa Italiana administrada pelo Circolo Trentino di Gramado, existente um pouco mais de vinte e cinco anos.
O livro que oferecemos ao turista para assinar dá conta de um número considerável de estrangeiros em visita a Gramado e região. Invariavelmente a curiosidade, as vezes acadêmica, surge a questão o "dialeto" para debate.
Esse movimento fortalece a alma, dá sentido ao passado, e, nos coloca em par de igualdade com outras culturas.
Porem, nosso município ainda resiste em fazer do Talian, língua auxiliar, uma divisa turística em especial nas escolas e na gastronomia rural, rica em todos os sentidos limitando-se este segmento a utilizar o termo "típico" como condutor da cultura ancestral.
Nossos cozinheiros, todos herdeiros da nossa cultura gastronômica colonial reconstruirão através da alimentação os traços típicos deixados pela nossa ancestralidade.
Fontes:
IPHAN Lei n° 7387/2010 estabelece a "Referência Cultural.
TALIAN NO RS: lei n° 11.961/2019. Patrimônio Imaterial.
Publicado originalmente em gramadoempauta.com.br.
O conteúdo desta coluna é de total responsabilidade do autor.






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